SENHOR DO BONFIM
o mar está consumindo a areia, como um cão que caça o próprio rabo, como quando eu perseguia minha sorte, como a raça humana procurando paz. a guerra interna que travei para manter a infância que foi arrancada pelo filho imperfeito da eternidade, o tempo cruel, as horas cruéis. mas tudo passa, por uma benção também dessa força sem controle, como o mar que apesar de tentar, nunca consome de todo a areia da praia.
a eternidade é gentil rainha das sombras, é duradoura e nos quer bem. o infinito a todos acolhe, a todos aceita e a todos espera, monarca dos espaços externos. mas são reis sem consciência de tarefa. não são entidades éticas. toda consciência nos foi dada. todo amor apenas a nós pertence. não espere ser amado pelo destino, filho bastardo do infinito.
a toda alma que buscou conhecimento, tempo foi dado para alcançá-lo. e a toda alma que quis sossego, espaço foi dado para buscá-lo. mas apenas aqueles que tentaram, pois as forças que regem a natureza são cegos e mudos, indiferentes a agência dos seres regidos. a vida não se busca, a vida nos foi dada.
imagine a mente humana como mapa. uma folha de papel azul com todos os conhecimentos disponíveis em branco. sobrará ainda tanto mais espaço azul que branco, mas ainda é um grão em comparação com o oceano sem fim daquilo que a mente não conhece. tudo que se toca, que se sente, e que se vê não são a realidade, mas tudo aquilo que está atrás do véu da matéria bruta que os sentidos apreendem. atrás de todo véu ilusório, de toda falsa verdade e toda mentira descarada, inverdade forçada, omissões necessárias, há apenas o infinito. o infinito e sua esposa eternidade, princípios geradores daquilo que há, aquilo que há na matéria e além dela.
no infinito e na eternidade, nasceram o tempo, o espaço e o destino. a escuridão da primeira era gerou a noite que vomitou das entranhas a luz do dia. todos resultados imperfeitos dos primeiros pais. mais imperfeitos ainda foram todos os cenários visíveis que surgiram para imitar a real realidade, a verdadeira verdade atrás da cortina, os cenários da natureza física, as tentativas dos descendentes do infinito e da eternidade de copiar os espaços além da vista. mas a natureza física, na linguagem de nós que fomos iluminados, é chamada porta. ela leva ao fim, o fim de todas as respostas, o fim de todas as perguntas. o fim de todo sentido e todo propósito. a falta de utilidade da consciência. todo nível de verdade física deixa de importar após atravessar a porta e a ela que vamos quando nos alinhamos com o cosmo, o espaço nu.
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